O escultor Caciporé Torres, que continua produzindo com o ritmo e o entusiasmo de um artista jovem, expõe suas novas esculturas na Galeria Pintura Brasileira

Caciporé Torres

Rei Zulu, 2014 / Caciporé Torres trabalhando em seu ateliê

Em 16 de Agosto ele abre nova exposição individual em São Paulo, na qual apresenta três dezenas de obras, a maior parte delas produzidas nos dois últimos anos. A mostra, que por dez dias estará na Galeria Pintura Brasileira, tem o título Três Oceanos – alusão ao fato de que Caciporé atravessou já três gerações desde o início de sua carreira artística, em 1948, quando pela primeira vez expôs seus trabalhos. A curadoria é de Carlos Zibel e Antonio Carlos Cavalcanti Filho.

As esculturas reunidas em Três Oceanos têm, quase todas, como principal material, o aço inox em estado de sucata. Várias são pintadas, no todo ou em parte, com tinta automotiva, procedimento que começou a ser usado por Caciporé a partir dos anos 1970, especialmente em suas esculturas de grande porte, destinadas a espaços abertos – uma das marcas distintivas do artista.

Na exposição são três das obras de grande porte, magníficas esculturas com altura próxima dos três metros. Exceto por várias obras mais antigas, inclusive algumas produzidas nos anos 1960, as demais são de médio porte – com alturas variando entre 120 e 185 cm.

São, todas elas, como sempre, obras rigorosamente planejadas. O processo criativo de Caciporé começa quando ele, por exemplo, vê um recorte na calçada…

A etapa primeira é o desenho – segundo ele, “quem não desenha não é artista” e “uma escultura é um desenho em três dimensões”. Faz depois estudos, maquetes, chega a levar às vezes mais de dois meses para se sentir pronto para, enfim, entrar no ateliê, pegar uma placa e começar a recortar. E se surge algum “problema”, não faz correções: aproveita um corte que aparece, acrescenta uma dobra a mais.

Não terceirizo nada! – Como sempre, as três dezenas de esculturas de Caciporé Torres reunidas em Três Oceanos não são peças a que se possa aplicar o adjetivo “bonitas”.

A beleza nunca foi seu objetivo. Ele evita os modismos, as tendências que marcam cada momento das artes plásticas. Em suas esculturas não há superfícies lisas e polidas, mas formas brutas, marcadas pelas cicatrizes das soldas. Caciporé desafia sempre os equilíbrios estético e geométrico. “Tenho horror ao decorativo”, afirma.

Praticamente todas as obras na exposição revelam uma das característica marcantes das esculturas do artista: as soldas grosseiras, agressivas. Soldas que funcionam como elementos funcionais e, ao mesmo tempo, estéticos. Que impactam o espectador e acabam por se tornar… belas.

Diz Caciporé: “Eu soldo muito mal, jamais encontraria emprego como soldador”. Apesar dessa “limitação técnica”, Caciporé sempre optou por fazer ele mesmo por fazer sozinho todas etapas de seu trabalho artístico. Definitivamente ele não é daqueles artistas que criam maquetes e as mandam para serem executadas por oficinas especializadas. Em seu ateliê, equipado com ferramentas simples – guilhotina manual para cortar as placas metálicas, solda elétrica e uma lixadeira elétrica –, é ele mesmo quem corta, lixa, verga, molda, solda, pinta. “Não terceirizo nada, até o pino eu faço”, afirma.

O artista trabalha com apenas um ajudante, que participa basicamente no momento de montagem dos vários pedaços das esculturas de grande porte – destacando-se que, também nessa hora, Caciporé participa ativamente. Ainda hoje faz questão de subir no andaime e fazer ele próprio a finalização da obra.

Por tudo isso, ao longo de décadas de vida artística, com estilo e linguagem ainda em evolução, Caciporé revelou-se sempre um artista de forte personalidade, dono de um idioma escultórico absolutamente pessoal. A exposição Três Oceanos é ótima oportunidade para apreciação de seu trabalho.

Vocação para espaços abertos – “Caciporé” significa “chefe forte e bonito”. É palavra vinda das linguagens indígenas: o pai e a mãe de Caciporé Torres se casaram na Europa e decidiram dar aos três filhos nomes indígenas, bem brasileiros.

Nascido em 1935, quando menino Caciporé já se diferenciava das outras crianças. Se a grande maioria delas adora desenhar, ele preferia brincar com miolo de pão, gostava mesmo era de volumes. Não demorou muito e começou a se fazer artista. Já em 1948, aos 13 anos, expôs pela primeira vez seus trabalhos, e em 1951 participou do 1º Salão Paulista de Arte Moderna.

Nesse mesmo ano de 1951, incentivado principalmente pelo pai, enviou trabalhos para a primeira Bienal Internacional de São Paulo – três desenhos a carvão e uma escultura em gesso com o título “O Marginal”. Não apenas teve seus trabalhos aceitos como veio a ganhar o cobiçado prêmio de Viagem à Europa. Tinha apenas 16 anos, e o pai teve de emancipá-lo para que pudesse viajar.

Caciporé começou então um produtivo e estimulante périplo internacional. Entre 1952 e 1967 dividiu-se entre Brasil e Europa (principalmente Itália e França), estudando, trabalhando e convivendo com artistas como Alberto Giacometti, Péricles Fazzini, Marino Marini e Alexander Calder, com os quais muito aprendeu. Nesse período participou de cinco outras Bienais de São Paulo (2ª, 3ª, 6ª, 8ª, 9ª), e depois ainda de duas outras (13ª e 22ª) – foi premiado em cinco delas. Participou ainda de mostras internacionais de importância, como a XXVI Bienal de Veneza, a Quadrienal de Roma e a IV Bienal Jovens de Paris.

Em seu extenso currículo de exposições, uma das mais importantes individuais de Caciporé aconteceu em 1969, quando da inauguração da nova sede do MASP, na Avenida Paulista – a convite, e com curadoria, de Pietro Maria Bardi. Ele, que já em 1955 tinha feito uma individual no MASP quando o Museu estava ainda na rua 7 de Abril, apresentou no magnífico vão livre do museu nove monumentais esculturas em metal, que por semanas e semanas atraíram as atenções da multidão que diariamente circula pela avenida.

Nasceu nessa época sua vocação para a criação de grandes esculturas para serem instaladas – e integradas – em espaços públicos. Há muito Caciporé tornou-se o artista com maior número de esculturas em espaços públicos. São hoje cerca de uma centena de trabalhos, que estão em diversas cidades mas, principalmente, em São Paulo – destaque-se, entre tantas, a monumental escultura “Voo”, na Praça da Sé.

Essa vocação para os espaços abertos levou Caciporé Torres também a parcerias com inúmeros arquitetos – de Paulo Mendes da Rocha a Lúcio Costa, de Oscar Niemeyer a Ícaro Castro Mello, de Vilanova Artigas a Carlos Bratke. Para eles criou, e continua criando, inúmeras esculturas integradas a projetos arquitetônicos de edifícios residenciais, comerciais e centros empresariais. | http://www.art-bonobo.com/caciporetorres

Como evidência dessa vocação de Caciporé para os espaços abertos, destaque-se que, na exposição Três Oceanos, duas das esculturas de grande porte estarão na área logo antes da entrada da galeria. Alé de “receber os visitantes” da mostra, essas esculturas poderão ser apreciadas por todos os que transitam diariamente pela rua Groenlândia.

Esculturas como vórtices do espaço – Trechos do texto dos curadores Carlos Zibel e Antônio Carlos Cavalcanti Filho para o catálogo da exposição:

(…) Como artista, Caciporé Torres se consagrou um mestre no diálogo entre a pura materialidade, a volumetria e a geometria das formas e se encaixa à perfeição, como veremos, nos ideários modernistas que passam a valorizar o caminho criativo gerado na individualidade do autor mais que os cânones formais e os procedimentos acadêmicos das épocas anteriores.
É sintomático que na mesma Bienal de São Paulo em que Max Bill, quase sinônimo do modernismo, foi escolhido artista homenageado, o escultor Caciporé Torres tenha recebido como artista revelação o Prêmio de Viagem à Europa.

(…) Apesar de uma admirável produção em desenho e gravura, o artista manteve sua escultura na linha informal e geométrica, sem aderir ao construtivismo de face racional, dando-se, entretanto, a liberdade de incursões próximas à figuração, porém, sempre dentro da compreensão moderna. É sabido que, nessa, pode valer mais a sugestão que a representação fiel do objeto, assim como o tratamento rústico, mais que o polido da matéria, desde que se preserve o sentimento e a linguagem plástica do criador.
Nessa época se estabelecem no repertório plástico moderno brasileiro certas estratégias contemporâneas que buscam trazer o espectador ao papel de agente e participador, como pontificado por Hélio Oiticica e Lygia Clark. Escultura como objeto. Obras como instalações. Site specific, penetráveis, manipuláveis e outras que atualmente se tornaram corriqueiras.
Desse período fundador para a arte contemporânea no país o escultor Caciporé Torres participou ativamente com suas assemblages e painéis, tanto em instalações em espaço aberto como em site specific.

(…) No desenvolvimento da opção de trabalho que o consagra nacional e internacionalmente o artista mergulha, cada vez mais profundamente, no escrutínio da natureza da representação escultórica e nas demandas da linguagem artística que seu leque de opções matéricas e processuais determina.
A solicitação por espaço que cada salto interior do escultor acrescenta à peça, que se desdobra no vazio, resultou levar muitas de suas obras para locais amplos ou abertos onde, afinal, podem respirar, expandir, mobilizar. Árvores, equipamentos, grupos, construções e multidões. Neles a obra floresce.
Não sem querer sua obra foi rapidamente descoberta por Pietro Maria Bardi, à época diretor do MASP, e por importantes arquitetos brasileiros, com cujos projetos ela conversa, valoriza e apoia.
E é justamente na escala do observador em espaço urbano que se percebem facilmente tais esculturas/ construções/ objetos como vórtices do espaço.
Situação em que o trabalho apresenta uma face ciclópica e o artista adquire aos olhos do público seu caráter mítico.

Serviço:
Três Oceanos, de Caciporé Torres
Galeria Pintura Brasileira
De 17 de Agosto até 25 de Agosto de 2018. De segunda a sexta, das 10 às 19 horas e sábados, das 10 às 14 horas.
Rua Groenlândia 530, Jardim América, São Paulo, SP
(11) 2729-5585
http://www.pinturabrasileira.com